A falsa polêmica da cesárea a pedido

A falsa polêmica da cesárea a pedido

Recebo o folder de mais um Congresso e, dando uma rápida olhada na programação, encontro um tema recorrente: palestra/debate/mesa redonda sobre “CESÁREA A PEDIDO”. 

A falsa polêmica da cesárea a pedido

Eu acho tão, mas tão improdutivo esse debate sobre cesárea a pedido nos congressos, quando é óbvio que as mulheres que realmente querem uma cesárea no Brasil estão tendo o seu direito respeitado. E sim, eu entendo que é um direito, desde que a mulher esteja devidamente informada, consciente e esclarecida e faça essa escolha depois de saber todos os efeitos e as consequências. Afinal, a mulher é senhora do seu corpo e DONA do direito de escolha. Seria no mínimo incoerente eu defender o direito de escolha em relação ao aborto e ser contra o direito de escolha da via de nascimento, alegando os “direitos do feto”. Eu aliás sou alérgica a esses argumentos pró “nascituro”. Vade retro!

O problema é que não vejo o menor sentido em se discutir um tema tão confortável para os debatedores e para a plateia, responsáveis quase todos pelos mais de 90% de cesáreas no setor privado em nosso país, taxas que infelizmente incluem as mulheres que NÃO escolheram ter essas cesáreas e cuja voz não foi ouvida. Mulheres cuja opção por um parto normal nunca chegou a ser considerada, mulheres que foram ludibriadas e submetidas a cesarianas sob falsos pretextos.

Em nome dessas mulheres e para fazer jus ao REAL direito de escolha, que tem duas vias, não é mão única nem vale somente para quem quer de fato uma cesariana, eu sugiro que os próximos eventos médicos incluam um tema de fato relevante: “PARTO NORMAL A PEDIDO”. Ou como você, médico, deve  eticamente se comportar com sua paciente que QUER ter um parto normal… Quando todo mundo está careca de saber que você tem quase 100% de cesáreas no consultório. E daí? Você é franco, honesto e avisa que só faz cesariana e dá a oportunidade de a mulher encontrar um outro profissional que respeite a sua escolha? Ou concorda inicialmente com a mulher e depois, ao longo do pré-natal, vai mudando o discurso, começa a avisar que só dá para saber na hora, tenta minar a confiança da gestante ou, pior, passa a procurar pretextos os mais descabidos para, enfim, indicar alegremente uma cesariana por circular de cordão na 37a. semana?

Vamos modificar esse debate? Ou passamos a debater o direito ao parto normal ou mudem o foco e vão discutir cesárea a pedido no SUS. Ou o “direito de escolha” só vale para quem pode pagar por ele?

Por Melania Amorim