Infância é o lugar da VIDA

EM BUSCA DE UMA OUTRA INFÂNCIA!

Quais são as primeiras palavras, as primeiras ideias quando pensamos em “infância”?

Bem, muitos dirão: pureza, alegria, descoberta, curiosidade… e por aí vai! Todas as ideias relacionadas a um tempo gostoso de nossas vidas. Mas infância não é só isso! Infância também é o lugar do abandono, da birra, do choro, das frustrações. É ou não é?

Esse ideal de infância foi construído historicamente e replicado pelos discursos da educação. E querem ver uma coisa? Lembram-se daqueles quadros antigos? De como os pintores representavam as crianças? Todas peladinhas e com carinha de anjo! Pronto! Entendem o porquê da ideia da pureza?

Essas ideias de que a infância é um lugar da descoberta e da felicidade pode até ser uma possibilidade para algumas crianças, mas não podemos generalizar! São muitas infâncias contidas em um país como o nosso.

Quando acreditamos que a tristeza, a frustração não são próprias à infância, não permitimos que as crianças se sintam dessa forma, o que pode gerar um sentimento de culpa àqueles que sentem! Onde já se viu criança chorar? Ficar triste? Criança tem de ser feliz! Matamos, dessa maneira, a possibilidade de vivermos uma vida plena, com tudo o que ela pode oferecer, nas agruras e nas alegrias! E sabemos que aprendemos também quando nos incomodamos com as coisas, não é?

A infância não pode ser um lugar marcado somente para a felicidade!

A infância é o lugar da VIDA! Sim, a vida acontecendo no instante presente! Com todos os sentimentos que ela pode nos oferecer.

Sendo assim, tendo superado os ideais dessa infância feliz, podemos propor uma infância como um lugar da descoberta, mas da descoberta de que a vida é intensa em seus sentires! Infância como o lugar das incertezas! Sim, porque crescer, amadurecer, envelhecer nos dá medo, nos causa insegurança! Não sabemos o que vem a seguir, não sabemos o que está adiante! Infância revela que não temos controle sobre as coisas! Joga-nos no abismo do conhecimento, oferecendo o frio na barriga da nossa queda! Ela nos ensina que o caminho vale mais do que a chegada! E não é assim que acontece com as crianças? Quem já presenciou uma criança preparando a sua brincadeira? Arruma tudo direitinho, monta as peças e bonecos com que vai brincar em sua história e, na hora de brincar… descobre que a brincadeira foi muito mais a preparação! Isso é processo: o espaço que dispõe intenções.

A infância que precisa de espaço! Espaço para ser o que se torna, transforma-se a cada instante.

 

A infância é o lugar da VIDA

Foto: Flavia Miranda – Arquivo Pessoal

 

A infância que gosta de miudezas. Tudo é aprendizado para o que se entrega à infância! Aprendemos com os sons, com a música, com o silêncio, com o toque, com palavras de afeto, com limites. Limites, construídos pelo meio, pela escola e, principalmente, pelo seu núcleo familiar. Colocar limites é desenhar o contorno do viver infantil.  Muitas famílias, com medo de frustrar, de deixar suas crianças tristes, negligenciam esse ato de generosidade. Não colocam limites e a criança acaba não entendendo o tamanho e dimensão de ações e sentimentos.

A infância como uma possibilidade de transformarmos o que nos acontece em experiências! Afinal, o que fica de nossas vidas? Memória! Tudo pode valer para uma criança! Uma palavra, uma conversa, um gesto! E é por isso que temos de ser bons exemplos para elas! Elas observam o que está a sua volta e criam memória a partir de suas vivências de vida! Essas vivências marcam e escrevem sua história, transformando o presente, o agora no sempre! Por isso, vivendo no mundo em que vivemos (consumidor de sentimentos do nosso tempo, da nossa energia), mas vale um segundo entregue de corpo e alma a sua criança do que uma hora de um brincar interrompido pelo toque do seu celular.

A infância como uma disposição atenta ao mundo! A atenção é a ferramenta que conecta, de forma afetiva, a pessoa ao mundo, aos saberes, aos espaços.

A infância como um tempo das invenções! Inventar significa ser autor, ter autoria, ser dono de seu próprio saber, falar com suas palavras, expor suas ideias de forma independente! Invenções como capacidade de imaginar! Imaginação como recurso de criação de uma nova vida a cada instante!

O que essa forma de ver a infância propõe é que nos livremos da mania de separar a vida por etapas! Infância não é uma fase, repleta de “deveria ser assim”, “faz parte dessa fase”. Infância é a vida acontecendo! É o respeito ao que o outro sente. Infância é uma relação inteira, verdadeira com o mundo!

E, se a infância é uma relação, uma forma de ser e de estar no mundo, pode nunca acabar! Um adulto capaz de reinventar uma relação, um adulto criador de ideias e conceitos, apaixonado pelo miúdo dessa vida, encantado pelas descobertas do aprender, é um adulto conectado à potência da infância! E um adulto que encara seus desafios, encara a dor, a frustração, o medo e as incertezas e consegue aprender com eles também é um adulto conectado à infância! O termo “infantil”, usado para designar determinados adultos, não pode ser usado, portanto, de forma pejorativa, pois, ao contrário, é o infantil que sente a vida com mais energia, com tudo o que ela tem para nos oferecer!

É o tempo que perdemos e que deveríamos tentar recuperar… como uma forma de viver, em descoberta, o mundo de sempre!

*Marcelo Cunha Bueno é pedagogo e fundador e diretor da Escola Estilo de Aprender. Com especialização em Harvard (EUA), é consultor estratégico da marca Toddynho®, da PepsiCo Brasil.